"Autismo e Análise do Comportamento"

( texto publicado na Folha de São Paulo online, em 2014)

Por : Dra Maria Martha Costa Hubner

         O artigo “Autismo e Psicanálise”, de Nilde Jacob Parada Franch Franch (Tendências/Debates), publicado no último dia 13 de setembro, queixa-se de que a Psicanálise vem sendo negligenciada como uma opção de tratamento, tanto pela mídia, como por algumas políticas de saúde política, e a defende como uma opção legítima. Se a Psicanálise é um opção legítima ou não para o tratamento do autismo, cabe aos psicanalistas demostrarem a eficácia de suas técnicas para o tratamento do autismo. Por outro lado, o que não cabe aos psicanalistas (ou ao psicanalista autor da matéria), é criticar as técnicas e os resultados de uma abordagem psicológica cujas evidências de sua eficácia para o tratamento do autismo são abundantes na literatura científica há décadas. "A terapia comportamental, Análise do Comportamento, por sua vez, desde 1988 vem reunindo evidências científicas para a comprovação da eficácia da Análise do Comportamento, também conhecida como “ABA”.

         O estudo pioneiro da Análise do Comportamento é de I. Lovaas (1988), em que 19 crianças de 4 a 5 anos,   diagnosticadas com autismo, foram submetidas à 40 horas de atendimento ( hoje conhecido como Tratamento Precoce Intensivo); dois anos depois o QI dessas crianças havia aumentado 20 pontos, em média; chegando próximo ao normal; nove dessas crianças aumentaram em 30 pontos, ficando acima do normal  e foram inseridas em sala de aula regular;

         Crianças com o mesmo diagnóstico que não foram submetidas ao tratamento intensivo, não apresentaram melhoras e o QI ficou em torno de 50 (o normal é considerado 85);

         Quando tinham entre  11 e 14 anos de idade, as crianças submetidas ao trabalho em Análise do Comportamento  continuavam bem, incluídos na escola e sociedade  e com comportamentos considerados típicos.

         Em torno de 400  estudos publicados em periódicos da área (como o Journal of Applied Behavior Analysis, por ex, ) sobre os graves comportamentos auto-lesivos em autistas , revelam que procedimentos  “consequence-based “ou “behavior oriented”, ou seja, em Análise do Comportamento ( ABA)  foram eficazes em reduzir tais comportamentos e em  ensinar comportamentos alternativos adaptativos.

        Os tratamentos baseados em ABA, por sua eficácia comprovada,  foram escolhidos como o tratamento indicado pelo  US Surgeon General e endossados por muitas associações renomadas, como a Academia Americana de Pediatria ( Scheinder, 2103) ;   nos Estados Unidos existem leis federais que exigem Terapia ABA para que o tratamento para o autismo possa ser  financiado pelos cofres públicos

           O autor da matéria também argumenta que os tratamentos comportamentais raramente falam em focar o bem estar da criança. Ora, a pergunta que se faz ao autor é, nesse sentido, a seguinte: que bem estar maior pode ser dado a uma criança e à sua família do que a plena capacidade de se desenvolver, de falar, de ler, de sorrir e de se relacionar com o outro? O bem estar está diretamente relacionado a essas capacidades e é isso justamente o que a Análise do Comportamento faz: dar o bem estar à pessoa  autista e a seus pais, por meio do ensino de capacidades fundamentais ao seu estar no mundo, que se dá pela aplicação da ciência da análise do comportamento.

 

Maria Martha Costa Hübner, 61, é Professora Titular da USP, representante internacional da Association for Behavior Analysis International (ABAI), eleita presidente em 2015.