"O trabalho da Análise do Comportamento com grupos: Possibilidades de Aplicação a Casais e Famílias.

Por : Dra Maly Delitti & Priscila Derdyk

Os nossos ancestrais obtinham alimentos (possíveis estímulos apetitivos) e fugiam ou se esquivavam dos perigos e intempéries da natureza (possíveis estímulos aversivos) de modo mais eficiente quando em grupo do que quando estavam sozinhos. A vida em grupo facilitou a sobrevivência para a espécie humana, isto é, os comportamentos relacionados com viver com outros indivíduos foram selecionados na história do homem. O modelo da Análise de Comportamento leva em consideração a interação como inerente à própria definição de comportamento:

Sidman (1995) afirma que:

  “O comportamento não ocorre em um vácuo. Eventos precedem e seguem cada uma de nossas ações. O que fazemos é fortemente controlado pelo que acontece a seguir - pelas consequências da ação. Provavelmente a mais fundamental lei da conduta é: consequências controlam comportamentos.”               

                         

Na situação de grupo terapêutico, a interação social entre os indivíduos promove auto-observação, autoconhecimento, mudanças nos indivíduos e consequentemente do próprio grupo. O processo clínico  em grupo produz interações sociais cujo produto é uma mudança de comportamento estabelecida pela demanda dos próprios participantes. Nestas situações, trabalha-se para que o cliente aprenda a observar os determinantes de seus comportamentos, ou seja, de quais variáveis esses são função. O ambiente de grupo clínico é rico em estímulos diferentes o que pode facilitar a emissão de comportamentos clinicamente relevantes - CRBs (Kohlenberg e Tsai, 2001) e, por ter maior semelhança com ambiente natural[1], a generalização também pode ser facilitada. O fato de os integrantes do grupo consequenciarem uns aos outros e não só o terapeuta e as possibilidades de aliança entre clientes são outros fatores que aumentam a probabilidade de eficácia do trabalho em grupo.

Uma característica da abordagem analítico-comportamental que aumenta sua eficácia e que fica evidente no trabalho com grupos é o seu aspecto pedagógico ou instrucional. O clínico pode ensinar a seus clientes sobre princípios do comportamento com o objetivo de torná-lo capaz de identificar as relações existentes entre seus comportamentos e consequências, descrever contingências e construir suas próprias regras. Na realidade, os resultados mais duradouros e generalizados são obtidos quando o cliente aprende a analisar as contingências envolvidas em suas queixas. Ensinar avaliação funcional ao cliente é um dos melhores procedimentos clínicos, já que o indivíduo que aprendeu a identificar o que controla seus comportamentos fica mais livre para analisá-los e modificá-los independentemente de seu analista[2]. Cabe ressaltar, no entanto, que para que esta estratégia seja efetiva é necessário adequar a linguagem e utilizar exemplos da vida dos clientes, sem a preocupação de utilizar termos técnicos que podem ser de difícil entendimento para algumas pessoas. No grupo, as regras decorrentes da história de vida dos diferentes indivíduos podem ser evidenciadas, questionadas e utilizadas como modelos para desenvolvimento de novos repertórios.

Outra vantagem dessa modalidade de atendimento decorre da possiblidade do reforçamento ser  diversificado e imediato. Realmente, os membros do grupo são capazes de prover uma fonte adicional de reforçamento positivo social e uma  preocupação com a melhora de desempenho dos membros do grupo. O clínico não é mais o único determinante do comportamento dos clientes. A situação grupal pode funcionar como um laboratório no qual se experimenta novos comportamentos e se desenvolvem novas formas de relacionamento.  Os membros do grupo provêem um reforço imediato para aquilo que se constitui num comportamento apropriado em dada situação. Além disso, os membros do grupo podem experimentar novas formas de comunicação com outras pessoas em situações que simulem mais proximamente o mundo real (ambiente natural). Há uma ampla base para modelação social em grupos, e os membros do grupo podem facilitar a aquisição, e a manutenção de comportamentos socialmente aprovados. Num grupo analítico-comportamental cada participante tem a possibilidade de se comportar como líder ou de ensinar papéis para outros membros do grupo. Se um dos membros do grupo tem habilidades que são valorizadas por outros membros pode ensiná-las para os outros integrantes; ele pode ser convidado a ajudá-los a obter as mesmas habilidades e à medida que aprende os conceitos e procedimentos pode dar modelo para outros participantes.

O primeiro passo em qualquer trabalho de aplicação consiste em fazer a avaliação inicial dos comportamentos. Muitos clientes começam um processo clínico em grupo relatando suas queixas de modo genérico, por exemplo: “fico nervosa”, “sou retraído”, etc. A tarefa do clínico será analisar tais queixas, descrevendo-as em termos de comportamentos específicos passíveis de observação (direta ou indireta) e de mudança. Além disso, a descrição das contingências permitirá que sejam identificadas as consequências advindas de tais comportamentos quer para o próprio indivíduo quer para as pessoas com quem ele interage. Dois tipos de problemas têm sido descritos na literatura: excessos e déficits comportamentais. Os excessos comportamentais se referem àqueles comportamentos que são emitidos em frequência, duração ou intensidade muito alta ou em situações socialmente inadequadas. Déficits comportamento são os padrões de comportamento que não são emitidos na frequência, intensidade ou duração necessária, da forma socialmente apropriada ou fora de contextos reforçadores. Tanto os excessos quanto os déficits comportamentais podem ocorrer com comportamento abertos ou encobertos, verbais ou não-verbais e, portanto, passiveis de análise e intervenção segundo os princípios da análise do comportamento. Em relação aos chamados encobertos,— tais como pensamentos, sentimentos e respostas fisiológicas — deve-se ressaltar que na análise clínica do comportamento estes são considerados comportamentos como quaisquer outros, a única diferença é o acesso que o observador externo tem a eles.  Isto é, quando se conduz uma avaliação funcional, os encobertos são analisados de acordo com suas funções examinando as variáveis de controle relevantes. Por exemplo, um cliente diz: “Penso que eu sou um fracasso completo!”. Na perspectiva de análise comportamental é preciso compreender a função ou a finalidade deste pensamento e do relato do mesmo, examinando as contingências que o controlam. Quais são os antecedentes sob os quais o este pensamento ocorre? O que acontece quando o cliente relata este pensamento? E, independentemente do relato, como este pensamento se relaciona com outros comportamentos e contingências da vida da pessoa? Em que situações é mais frequente? Quais são as contingências de reforço que mantém tal pensamento e tal relato?

Na análise clínica do comportamento, a mensuração e a avaliação fazem parte constante da prática e tem os seguintes objetivos:

a) identificar os comportamentos-alvo e as circunstâncias que mantêm tais comportamentos;

 b) auxiliar na seleção de uma intervenção apropriada;

c) fornecer meios de monitoramento dos progressos do tratamento;

d) auxiliar na avaliação da eficácia de uma intervenção.

 Após a avaliação inicial o trabalho do clínico será criar condições que levem o cliente a identificar as classes de contingências de reforçamento na sua história de vida que o levaram a emitir aquele comportamento que ele relata lhe trazer sofrimento (tem consequências aversivas). Além disso, será necessário levar o cliente a identificar que devem existir, no seu cotidiano, contingências que mantém os padrões relatados como problema, incluindo-se aí padrões de fuga/esquiva. Finalmente o clínico deve criar condições para que o cliente, através de controle por instruções ou regras, a emitir comportamentos que tenham grande probabilidade de serem reforçados no contexto social.

Para executar seu trabalho o clínico irá se utilizar dos princípios da Análise do Comportamento, ouvindo o relato verbal do cliente acerca das situações de sua vida cotidiana e observando e interpretando os comportamentos que são emitidos na sessão. Tsai e Kohlenberg (1991) afirmam que “a observação e interpretação de um terapeuta sobre um comportamento é uma função da história do terapeuta, que inclui também seu referencial teórico”. O tipo específico de interpretação escolhido pelo clínico varia de acordo com o seu propósito e com o contexto da análise. Contingências da história de vida do próprio profissional também estarão sempre presentes, seus valores, regras e experiência de vida. O analista neutro ou “distante” é uma falácia do processo clínico. Entretanto, o clínico deve tomar cuidado para não transmitir seus próprios valores.

Tudo que o cliente faz na sessão são comportamentos que foram aprendidos e ocorrem devido à similaridade funcional entre estímulos presentes na sessão e na situação de aprendizagem. Por exemplo, quando se sente irritado com um comportamento do cliente o clínico deve se perguntar: será que esse comportamento do cliente é uma amostra de seu comportamento na situação natural e dos respondentes que evoca nas outras pessoas, ou eu estou irritado porque estou cansado? Ao fazer este autoquestionamento o profissional estará procurando identificar se seus encobertos foram evocados pelo comportamento do cliente ou por contingências de sua história pessoal.

Outro aspecto que deve ser enfatizado é que a  aplicação da Análise do Comportamento em situação de grupo propicia condições de aprendizagem tanto através de uma participação ativa como através da observação do comporatmento dos outros.  A modelação e o ensaio de comportamento são estratégias fundamentais para o trabalho em grupo.

Modelação (modeling): na terapia em grupo a modelação ou aprendizagem por observação é um dos instrumentos de maior importância. O comportamento do clínico é modelo para os integrantes do grupo bem como os comportamentos dos demais integrantes podem também serem uns para os outros. Bandura (1969, 1971) foi um dos primeiros autores a pesquisar e analisar as evidências empíricas da aprendizagem por modelação e demonstrou que a modelação pode ter três efeitos sobre os clientes: primeiro os observadores podem adquirir novos padrões de comportamento; além disso, a modelação também pode fortalecer ou inibir respostas que já existem no repertório do observador, e estão reprimidas por contingências aversivas; e, finalmente, a modelação pode facilitar respostas que já existem no repertório do indivíduo, mas são emitidas em baixa frequência. Baum (1994/1999) afirma que os indivíduos nascem com uma sensibilidade específica para serem afetados por estímulos que vêm de outros seres humanos, estímulos estes essenciais para o desenvolvimento normal, e que essa sensibilidade específica em relação a determinados estímulos é que o torna apto a aprender a partir do modelo.

Aprender com o modelo é fundamental para a existência de uma cultura, pois permite a reprodução e continuidade dos seus valores, economizando tempo de aprendizagem e aumentando a probabilidade de aquisição de comportamentos adaptativos à sobrevivência da espécie. Os indivíduos que aprendem, a partir do modelo, comportamentos provenientes de gerações anteriores, em contraposição àqueles que aprendem por si próprios através, por exemplo, de tentativas e erros, aumentam a probabilidade da sobrevivência e manutenção da cultura (Bandura, 1969/1971). De acordo com Baum (1999), “a imitação provê a base da aprendizagem operante” e pode ser não-aprendida ou aprendida. O primeiro tipo (imitação não-aprendida) não exige nenhuma experiência especial. A imitação não-aprendida, combinada com a modelagem, é responsável pela aquisição do comportamento verbal. Já a imitação aprendida é uma forma de comportamento governado por regras. Quando alguém verbaliza para o outro “faça assim” e mostra como fazê-lo, essa pessoa será capaz de seguir esta instrução e este modelo, dependendo de sua história de reforçamento do comportamento de imitar no passado. A imitação permite que regras sejam passadas para outras gerações, possibilitando a transmissão da cultura e aumentando a sua probabilidade de sobrevivência.

Os pais são os primeiros modelos a serem seguidos por seus filhos e servem de modelo para muitos comportamentos diferentes. Esses comportamentos podem ser mais aceitos socialmente, como por exemplo, o comportamento amoroso, ou ser menos aceitos, como a imitação de comportamentos violentos por crianças que têm pais agressivos. Deve- se, entretanto, salientar que o que é adequado socialmente depende do contexto: o comportamento assertivo e cooperativo de uma criança pode ser adequado ou inadequado, isto é, trazer consequências “positivas” ou “negativas” dependendo do fato dela viver em uma família de classe média ou alta, em um orfanato, um abrigo para menores, etc. Em geral, uma pessoa não copia só um modelo, mas sim vários e também não copia a íntegra do comportamento do modelo, mas sim alguns aspectos desse comportamento. Conforme vai ficando exposta a novas contingências ou novos modelos, o comportamento aprendido por modelagem pode ir mudando de aspecto, acrescido ou modificado.  Esta possibilidade de mudança de padrões de comportamento é uma variável relevante no trabalho com grupos.

Há alguns fatores que facilitam a aprendizagem por modelação: a habilidade do cliente em observar e diferenciar determinados aspectos do comportamento do modelo; as características do modelo, suas similaridades em relação idade, raça, grupo social, etc. e as contingências nas quais o modelo se encontra ao ser apresentado ao observador. Bandura (1969/1971) afirmou que se um modelo for reforçado na presença de um observador a probabilidade da imitação é maior. Além disso, de acordo com esse autor, o papel do controle social sobre o comportamento do modelo deve ser lembrado. Isto é, o comportamento do modelo dependerá das regras sociais e essas variam de cultura para cultura. Na situação natural pode ocorrer, também, que alguém que desempenhe papel de modelo apresente um amplo repertório de esquiva, o que poderá impedir que o indivíduo entre em contato com inúmeras contingências. Na situação clínica observa-se que pessoas com problemas de fobia ou de ansiedade exagerada relatam histórias de aprendizagem destes padrões (“meu pai e meu avô também eram como eu”).

Outro aspecto a ser considerado é que a aprendizagem por modelação ocorre ainda que a relação de contingência não esteja explicitada. Por exemplo, comportamentos liberais em relação a sexo, cuidados com limpeza pessoal, a forma de administrar dinheiro são aprendidas através dos anos em nosso ambiente social, ainda que as contingências não estejam explicitadas. Bandura (1969/1971) chamou de modelos simbólicos aqueles que não eram apresentados “ao vivo”, como os personagens de filmes ou livros. Neste sentido, as regras sociais podem ser consideradas como um modelo importante. Baum (1999) ressaltou que a regra “imite o sucesso” faz parte da cultura. Assim, os indivíduos imitam ídolos da TV ou do esporte, que são modelos apresentados pela mídia em contingências de reforço identificadas como sucesso ou prestígio. 

Na clinica, o estabelecimento de uma boa relação terapêutica significa que o clínico adquiriu propriedades de modelo com valor reforçador. Não processo clínico em grupo a variedade de modelos é maior, isto é, podem ser modelos os clínicos, outros membros do grupo, e pessoas do ambiente natural dos clientes. Em suma, a modelação e o ensaio de comportamento são estratégias fundamentais no trabalho com grupos. Ensaio comportamental é a simulação de situações reais da vida do indivíduo, situações nas quais ele apresenta algum grau de dificuldade, e pode ser utilizado para avaliação e para intervenção.

A Modelação e o ensaio de comportamento como estratégia de avaliação: Quando o indivíduo representa uma situação que tenha ocorrido em sua vida pode se observar seu comportamento verbal e não-verbal, a topografia dos mesmos, tom de voz, gestos, entonação e postura. Essa observação costuma fornecer dados importantes para a análise das contingências.

Modelação e o ensaio de comportamento como estratégia de Intervenção: são inúmeros os comportamentos que podem ser instalados ou alterados, desde comportamento de observar a si e aos outros, analisar e descrever contingências, habilidades sociais, empatia, comunicação, autorevelação, enfrentamento, etc. Vale a pena salientar que os primeiros modelos de comportamentos que o clínico apresenta para os clientes são os autorelatos, principalmente aqueles cujo conteúdo mostre empatia e aceitação social, isto é, o clínico se comporta visando servir como modelo de como os clientes podem liberar reforço social aos outros integrantes do grupo. A modelação pode ser facilitada quando, por exemplo, durante um ensaio de comportamento no grupo, o clínico der uma instrução prévia oral ou escrita em cartões levando os clientes a ficarem sob controle dos estímulos relevantes, dizendo, por exemplo: “prestem atenção ao tom de voz e aos gestos do P nesta situação”.

Uma variação de modelação ocorre quando o clínico atua como espelho, isto é, emite um comportamento (verbal ou não) similar a um comportamento emitido ou descrito pelo cliente para o grupo observar, reforçar diferencialmente e, se necessário e possível, emitir comportamentos alternativos. Além disso, pode ser feita a troca de papéis: o cliente troca de papel com outro participante da dramatização, seja ele clínico ou outro membro do grupo. De qualquer forma, para que a modelação seja uma estratégia efetiva devem ser seguidos os seguintes passos: descrever a situação problema, decompor a sequência comportamental (operacionalização), dar instruções ou modelo de desempenho, ensaio, dicas sobre o desempenho, inverter papéis, re-ensaiar, reavaliar o desempenho, programar a generalização, avaliar o desempenho na situação natural.

A Análise do Comportamento pode ser aplicada com eficácia a diferentes tipos de grupos. Algumas dessas possibilidades são grupos de:

 *Autoconhecimento

* Treino de habilidades sociais realizados no consultório ou em empresas

 *Mulheres: grupo temático com sessões dirigidas que discutem aspectos específicos da vida das mulheres

 *Asmáticos: para identificação de contingências relacionadas às crises e aprendizagem de padrões de respiração e relaxamento

 *Universitários com dúvidas profissionais

 *Coaching Comportamental: para problemas em empresas.

* Casais

*Famílias

Destes grupos acima citados os dois últimos: casais e Famílias serão foco de algumas reflexões.

 

O trabalho com casais

O processo clínico de casais, frequentemente chamado de terapia de casal, é uma das áreas de atuação mais desenvolvidas nas últimas décadas. A incidência de procura na clínica analítico-comportamental é muito alta. Embora os princípios da Analise do Comportamento sejam os mesmos para compreensão da aquisição e manutenção de comportamentos de diferentes indivíduos, não se pode pensar em um trabalho com casais com um modelo padronizado, ou como um conjunto de técnicas que sejam aplicáveis a todos os casais. Cada casal é único e tem sua história específica de relacionamento e, portanto, merecerá avaliações, estratégias e intervenções próprias.

Stuart (1969) foi dos primeiros analistas comportamentais a se dedicar a atender casais. Sua proposta era entender o casal como estando sob controle recíproco dos comportamentos um do outro, de modo geral controle aversivo. Sua estratégia básica envolvia o “contrato de trocas de comportamentos”, isto é, cada membro do casal escolhia um comportamento que gostaria que o outro desenvolvesse ou mudasse (frequência, topografia, intensidade). O treino em comunicação e em tomada de decisão e o estabelecimento de controle positivo entre os parceiros eram os aspectos básicos da proposta de Stuart (1969). Realmente, sabemos que algumas pessoas aprendem em sua história de vida a resolverem conflitos de forma não agressiva, conviverem com diferenças e ouvir outros pontos de vista. Uma história de vida que tenha tais características facilita a discussão de incompatibilidades e a solução de eventuais dificuldades surgidas no convívio do casal, facilitando o trabalho junto ao casal.

  Jacobson e Cristensen (1992) denominaram de Terapia Comportamental de Casal Integrativa uma proposta que, segundo os mesmos, integrava a terapia comportamental proposta por Stuart (1969) com a terapia de aceitação e compromisso (Hayes, 1997). Segundo este modelo o clínico deve transformar problemas em formas de se obter maior intimidade entre membros do casal e fazer com que estes parem de lutar para transformar o outro naquilo que eles desejam no casamento. O clínico deve ter a habilidade de remover o principal foco de problemas entre casais, isto é, o fato de cada um tentar mudar o outro, o que  promoverá uma maior tolerância para com características indesejáveis do outro, modificando o ambiente de conflito e assim possibilitando mudanças. Alem disso, o trabalho clínico visa aumentar a intimidade do casal, fazendo com que cada um passe a valorizar características “positivas” do parceiro, ao invés de tentar mudar o que lhe desagrada no outro.

Na realidade podemos entender as intervenções de aceitação emocional como a alteração dos aspectos da situação e a maximização da capacidade de cada um de responder receptivamente ao sofrimento do outro, através da mudança da função do estímulo antecedente.

Um princípio de Análise do Comportamento que é fundamental no atendimento de casais é a análise da coerção (Sidman, 1995). Quando procuram por ajuda de um profissional os casais, geralmente, se encontram sob controle de interações coercitivas: um cônjuge age exercendo função de estimulação aversiva até que o outro responda reforçando-o, na medida em que ele atinge seus objetivos. O parceiro, por sua vez, também é reforçado, nesse caso negativamente, pois se livra da coerção. A intermitência do reforço faz aumentar ainda mais a coerção. O parceiro inicialmente não coercitivo pode passar a usar coerção para se ver livre da estimulação aversiva inicial. Cria-se assim um ciclo vicioso. Nessas interações coercitivas os padrões de comportamento que usualmente se estabelecem são: (a) Evitação mútua: casais diante de incompatibilidades optam por ignorá-la para evitar o conflito (fuga/esquiva), (b) Interação negativa mútua: ambos os cônjuges engajam-se em ataque o outro (exercem efeitos coercitivos) e  (c) Evitação  e interação negativa: um dos parceiros se engaja em interações coercitivas, enquanto o outro tenta evitar o conflito, esquivando-se.

 

 

 

O Trabalho com Família

A família é um grupo de pessoas que interagem entre si, modelando comportamentos em cada indivíduo e, consequentemente, no grupo como um todo. Assim, responde ao critério de ser um grupo social. É na família que cada indivíduo começa a aprender a viver em sociedade. Essa aprendizagem é decorrente da interação recíproca entre os diversos membros que resultará na instalação e fortalecimento de grande parte do repertório de cada um. Além disso, a família é o contexto em que seus membros costumam se expressar mais inteiramente em sua complexidade. Esta interação familiar é que será o foco do trabalho clínico (momento presente) bem como a história contada por cada um (momento passado). A comunicação uns com os outros é feita por gestos, olhares bem como por palavras.

 A trabalho com família, a partir do enfoque da Análise do Comportamento, teve seu início com a aplicação dos princípios de AC a problemas de comportamento infantil e orientação a pais (Patterson, 1972). Nessa época Liberman (1970) enfatizou que as famílias só procuram atendimento após muito tempo de controle aversivo entre seus membros. Efetivamente, a atuação do analista clínico do comportamento em qualquer local e com qualquer indivíduo ou grupo sempre será decorrente do controle aversivo que existe na sociedade e seu trabalho consiste em criar condições para que os indivíduos aprendam a lidar com este controle aversivo, alterando as contingências ou, se não for possível desenvolvendo respostas de fuga/esquiva.

A prática clínica atual baseia-se essencialmente na interação verbal, que é utilizada pelos clínicos para ter acesso aos comportamentos abertos e encobertos do cliente. O trabalho com família cria um contexto para as pessoas interagirem diretamente umas com as outras podendo se identificar os CRBs. Esse contexto deve ser cuidadosamente observado e analisado como uma situação na qual o próprio clínico faz parte das contingências.

O profissional ouve os temas, os relatos verbais e descreve o que está observando, por exemplo, onde as pessoas estão sentadas em relação uns aos outros, se há a formação de alianças e/ou subgrupos. Além disso, devem ser observados outros comportamentos não verbais dos diferentes membros do grupo familiar como trocas de olhares, mudanças de cada um em direção a aproximação ou afastamento do outro, toques ou manifestações de carinho.

De acordo com a proposta da abordagem analítico-comportamental no atendimento a famílias os problemas são especificados de forma objetiva e concreta e as estratégias clínicas são planejadas com base em dados empíricos e submetidas à avaliação constante. Ao estabelecer os objetivos, procura-se identificar expectativas e são coletados dados para a análise da história do problema – como os problemas começaram que eventos estão relacionados à sua manutenção –, isto é, é feita a avaliação funcional. Entre os primeiros objetivos das sessões estão: a) comprometer a família com o trabalho, b) estabelecer objetivos a serem alcançados por todos e por cada um, c) fazer uma análise comportamental das interações e d) desenvolver e implementar uma estratégia de intervenção. Outro cuidado que deve ser tomado após a implementação das estratégias de intervenção é o planejamento da generalização e/ou equivalência funcional – para que os ganhos da sessão se mantenham na vida cotidiana. Ambientes fisicamente diferentes podem ser funcionalmente semelhantes e assim controlarem o mesmo comportamento. A generalização e a equivalência são os conceitos que explicam eficácia do trabalho clínico analítico-comportamental na vida cotidiana.

Para concluir deve-se ressaltar que ser um analista de comportamento e trabalhar no consultório com pessoas individualmente ou com grupos (famílias, casais, etc.) é uma atividade complexa que depende de uma base teórica sólida, de estudos constantes e também de autoconhecimento.

Referências

Bandura, A. (1969/1971). Principles of behavior modification. N.Y: Holt, Rinehart and Winston.

Baum, W. M. (1999) Compreender o behaviorismo: ciência, comportamento e cultura. Porto Alegre: Artes Medicas

 Hayes, S. C. (1987). A Contextual Approach to Therapeutic Change.In Jacobson, N (Ed) Psychoterapists in clinical Practice:Cognitive and Behavioral Perspectives.NY-Guilford Press.

Jacobson, N.S E Christensen(1998)-“Acceptance and Change in Couple Therapy”.W.W. Norton & Company. 

Kohlenberg, R.J. e Tsai, M.(1991/2001) Psicoterapia Analítico Funcional: Criando Relações Terapêuticas Intensas e Curativas. Santo Andre-ESETec.

Liberman,R.  (1970) Behavioral Approaches to family and couple therapy. American Journal of Orthopsychiatry,40.

Patterson,G.R.(1972)-Families: applications of social learning to family life.

Tharp ,R.G. & Wetzel,R.J.(1969)-Behavior modification in the natural environment. Academic Press.

Sidman, M.(1995). Coerção e suas implicações. Editorial Psy.

Skinner, B. F. (1953/1989).Ciência e Comportamento Humano.São Paulo-Martins Fontes.

Stuart, R.B.(1969).Operant - interpersonal treatment for marital discord. Journal of Consulting and clinical Psychology,33.

 

[1] Ambiente natural é um termo empregado para se referir aqueles contextos nos quais estamos inseridos no dia-a-dia e geralmente utiliza-se o termo para diferenciar do contexto clínico, que se propõe diferenciado.

[2] Para ver uma discussão mais aprofundada sobre essa possibilidade de se tornar mais livre, ver capítulo XX.